INFORME TÉCNICO
Leandro José Grava de Godoy
Professor de Fertilidade do Solo e Nutrição Mineral de Plantas do Campus
Experimental de Registro Universidade Estadual Paulista – UNESP

•legodoy@registro.unesp.br

Nutrição do gramado Parte VII

O Silício (Si) não é considerado um nutriente (elemento essencial) para as plantas, pois estas podem ser cultivadas e completarem seu ciclo sem a presença dele. No entanto, quando adicionado ao solo, via foliar ou na solução nutritiva, em cultivos hidropônicos, pode proporcionar efeitos benéficos para a planta. Ela se torna mais tolerante a patógenos ou pragas e reduz a perda de água por transpiração, ficando mais resistentesà falta de água. O aproveitamento da radiação solar também melhora, por manter as folhas mais eretas. Além disso, torna as plantas mais resistentes ao acamamento.

Esses efeitos, indiretamente, acabam resultando em aumento do crescimento ou da produtividade. Para os gramados, o efeito do Silício é muito interessante. Eles se tornam mais resistentes à seca, permitindo que se aumente o intervalo entre uma irrigação e outra. Eleva a tolerância a altas e baixas temperaturas, permitindo a maior sobrevivência de gramas de estação quente no inverno ou de gramas de estação fria no verão. Aumenta também a resistência das folhas da grama ao tráfego, o que é essencial para gramados esportivos, assim como torna os gramados mais resistentes a patógenos e pragas. Apesar de o Silício ser o segundo elemento mineral mais abundante na crosta terrestre, em muitos solos a quantidade disponível é baixa, principalmente em regiões com altas quantidades de chuvas, com elevado grau de intemperismo e de lixiviação do Silício.

A absorção do Silício por plantas colhidas em áreas de cultivo sem a adequada reposição deste, também tem contribuído para a redução do teor de Si disponível nos solos. Solos minerais muito intemperizados, mais ácidos (com baixo pH), e solos orgânicos geralmente apresentam baixo teor de Silício. Os solos arenosos possuem altas quantidades de óxido de Si (quartzo - SiO2), mas apresentam baixo teor de Si disponível para as plantas. Este fato é importante para gramados que são instalados com substratos à base de areia (quartzo), como gramados esportivos (campos de futebol, greens de campos de golfe, etc.).

Nestas situações a disponibilidade de Silício normalmente é muito baixa, portanto as aplicações deste elemento devem influenciar algumas características dos gramados. Muitas plantas são capazes de absorver Silício, no entanto, dependendo da espécie, o teor de Si no tecido vegetal pode variar de 0,1% a mais de 10%. Consideram-se plantas acumuladoras aquelas com teor de Si maior que 1%, como é o caso da maioria das gramíneas. como o arroz, cana de açúcar, milho, trigo, aveia e as gramas. Em plantas como a cavalinha, tiririca, cana de açúcar e arroz, o conteúdo de Silício chega a ser maior que o de macronutrientes como o N e K. As gramas de estação quente têm mostrado boa resposta à aplicação do Silício, havendo um aumento significativo no teor deste elemento nas principais gramas utilizadas no Brasil (Tabela 1). As gramas Bermuda e Zoysia são as que apresentam maior teor de Silício, uma das características que as tornam mais resistentes ao tráfego ou pisoteio.

Em experimento realizado nos E.U.A., a grama Santo Agostinho apresentou aumento linear da concentração de Silício, de acordo com a maior disponibilidade de Si no solo, elevando o teor foliar de Si, de 0,6%, em condições de baixa disponibilidade de Si no solo, para 1,2%, em condições de alta disponibilidade (Figura 1). Este tipo de resposta também foi observado na grama Bermuda, ocorrendo aumento do teor foliar de Si, de 0,4 para 0,8%, com a aplicação de 10 t/ha de silicato de cálcio. Assim, a aplicação de Silício em gramados com baixa disponibilidade de Si, provavelmente, pode resultar em aumento do teor foliar de Si na grama, podendo proporcionar algum efeito benéfico.

Resultados de experimento realizado nos E.U.A. indicam aumento na resistência da grama Zoysia à Rhizoctonia solani. O desenvolvimento da doença Gray leaf spot (mancha cinza na folha), causado por Pyricularia grisea, foi reduzido em cultivares de grama Santo Agostinho quando realizada a aplicação de Silício (Figura 2). Também já foi observado o aumento da resistência da grama Bermuda “Tifway”, fertilizada com Si, ao patógeno Bipolaris cynodontis, que causa a doença Bipolaris Leaf blocth (mancha foliar de Bypolaris), em relação a gramas que não receberam o Si. Logo, a utilização do Silício pode reduzir a aplicação de fungicidas, diminuindo os riscos de contaminação ambiental.

Alguns trabalhos têm demonstrado também aumento na tolerância ao tráfego com a aplicação do Silício nas gramas Zoysia e na Seashore Paspalum. O acúmulo de Silício logo abaixo da cutícula da folha e dos caules, junto com o aumento na síntese de lignina, pode promover esta maior resistência da grama. Na grama Seashore Paspalum foi comprovado o efeito da aplicação de Silício, aumentando a resistência a baixas temperaturas. Na Figura 3 pode ser observado um gramado que não recebeu Silício, apresentando as pontas das folhas amareladas e baixo crescimento, indicando o efeito das baixas temperaturas de inverno. A comparação é feita com um gramado que recebeu a aplicação de silicato de potássio. Este efeito ocorre devido ao fato de que o Silício proporciona maior acúmulo de solutos nas células das gramas e melhora o sistema defensivo das gramas contra estresses, como no caso, o frio. Fica claro que, apesar do Silício não ser um elemento essencial para a grama, a sua aplicação em solos ou substratos carentes de Si, como nos greens de golfe, pode resultar em efeitos benéficos para os gramados e para o meio ambiente.

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